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Qualidade notáveis

As características abaixo, normalmente são arroladas como recursos de Retórica, mas, na verdade, são apenas propriedades desses recursos.

Sinestesia: é a propriedade do discurso que gera uma associação entre uma sensação e outra sensação, ou uma impressão, ou uma situação.

Exs.: Sensações evocando sensações: 'cor quente', 'doce música', 'voz áspera'. Todos os exemplos dados são metáforas sinestésicas.

Sensações evocando impressões: 'sabor de pecado', 'música sensual', 'imagem do medo'. Os exemplos dados são metonímias.

Emoções evocando sensações: 'amor quente', 'sentimentos úmidos'. Os exemplos são metáforas.

Situações evocando sensações e vice-versa: 'amargo regresso', 'sendeiro luminoso', 'comportamento frio'. Os exemplos dados são metáforas.

Impressionismo: ocorre quando uma situação, sensação, ou mesmo impressão se associa a uma impressão.

Personificação: é a atribuição de características humanas a coisas não humanas. Exs: 'tempestade furiosa' (metáfora), 'triste madrugada' (metonímia).

Materialização: é o recurso que associa uma noção abstrata a algo concreto. Exs: 'amor sólido', 'determinação férrea'.

Palpabilidade: é a característica do discurso que traz o conceito para a área do familiar, do mensurável, do concreto, do preciso, para o receptor.

Há muitos casos de sobreposição de característica.

Exs.: 'Triste madrugada' é uma metonímia prosopopéica e impressionista.

'Amor quente' é uma metáfora sinestésica e impressionista.

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Outros recursos

V

amos abordar aqui alguns recursos retóricos que não foram tratados individualmente.

Balizas

Balizas do discurso são frases que parafraseiam as funções de diversos recursos de Retórica. Alguns exemplos:

  • Sinalização de ênfase: É bom frisar ..., Ressalto que ...

  • Indicação de ordem: Primeiramente ..., Por fim ...

  • Índice de segmentação: Vamos à outra parte ...

  • Indicar entoação: Pausadamente ..., Gritado ....

  • Indicar foco: Os verbos discendi são exemplo: Disse ele ...

Silepse

Numa leitura imediata, a silepse é uma anomalia de concordância. Uma ou mais flexões da frase discordam do termo sintaticamente ligado. Via de regra, a concordância se dá com um termo hipotético, implícito, mas previsível, que poderia substituir com pertinência o termo discordante. A substituição não causaria prejuízo à mensagem.

Na maioria das ocorrências, a silepse não é um recurso de Retórica. Ela é mais comum como anomalia e como solução para o problema de concordância dos termos compostos. Em certos casos, é difícil discernir se a silepse tem característica de recurso de Retórica ou de anomalia. Exemplo: A dupla não fez nada. Ficaram parados. Neste exemplo, não há como prever se houve intenção ou lapso.

A silepse como solução para a concordância dos termos compostos: Eu e ele fizemos tudo. Neste exemplo, o verbo não concorda com nenhum dos dois sujeitos. Concorda com a idéia de conjunto.

Existe uma pseudo-silepse que surge quando um nome pede concordância diferente da que o conceito que ele representa pede. Exemplo: A populosa e dinâmica São Paulo. O conceito cidade pede concordância no feminino. O conceito São Paulo pede concordância no masculino.

Hipálage

A hipálage é um recurso de Retórica ou uma anomalia do discurso? Na frase: Enfiou o chapéu na cabeça não há estranhamento. Ao contrário, quando se diz: Enfiou a cabeça no chapéu há estranhamento. Este exemplo é de uma hipálage lexicalizada que não funciona como recurso de Retórica mas como forma-padrão. A explicação para o estranhamento talvez esteja na psico-lingüística. As frases são construídas de modo a considerar algo como agente e algo paciente. Como no processo de colocar o chapéu na cabeça o deslocamento é realizado pelo chapéu sob o ponto de vista da subjetividade de quem observa o chapéu entra na estrutura da frase como agente.

A hipálage pode ocorrer como anomalia, como forma típica padrão e como recurso de Retórica. Quando ocorre como anomalia, geralmente de tempo real, a hipálage deriva de uma confusão de atribuição de funções sintáticas. As ocorrências como padrão lingüístico geralmente derivam de uma anomalia que se consagrou no uso. Enquanto recurso de Retórica a hipálage tem mecanismo semelhante ao da metonímia. É uma atribuição impertinente em que o que se atribui é pertinente ao que está contíguo na estrutura da frase.

Anacoluto

É uma frase incompleta, típica do discurso oral informal, na qual faltam termos sintáticos. Exemplo: Hum, vejamos. E se eu fizer... Não, não, quer dizer... talvez se a gente... .

Geralmente, a falta de palavras se dá no final do enunciado. Por ser sintaticamente incompleto o anacoluto é semanticamente incompleto. O anacoluto assemelha-se à elipse, que também é frase incompleta. Diferem no fato que na elipse a parte ausente é previsível. Apesar de incompleta, da frase elíptica se extrai um sentido completo.

No discurso espontâneo, o anacoluto surge em função de má codificação e por isso não é considerado recurso de Retórica. Isso ocorre porque o emissor se arrepende da solução que iniciou ou porque começou a emitir sem ter em mente o final, ou por se arrepender do que começou.

Como recurso retórico, o anacoluto ocorre quando a suspensão do enunciado é intencional e deixa a continuação apenas sugerida pelo contexto. Exemplo: 'Para bom entendedor...'

Bloqueia-se a continuidade do enunciado para fins de atenuação, para possibilitar plurissignificação.

Na Retórica clássica há uma definição de anacoluto que preferimos arrolar como um caso particular de retomada. Exemplos:

Essas criadas de hoje, não se pode confiar nelas.

O forte, o covarde seus feitos inveja.

A rua onde moras, nela é que desejo morar.

Os termos Essas criadas de hoje, O forte e A rua onde moras são postos em destaque pela citação desligada de outros termos sintáticos. Logo depois vem a frase onde se encaixariam e onde são substituídos por pronomes. É um recurso de ênfase, não é resultado de codificação defeituosa.

Enumeração

Enumeração é a seqüência de pelo menos dois elementos de mesmo status sintático no discurso. Há três tipos de enumeração:

  • Aditiva - representada pelo conetivo 'e'.

  • Optativa exclusiva - representada pelo conetivo 'ou'.

  • Optativa não exclusiva - representada pela conexão 'e/ou'.

Geralmente os elementos de uma enumeração são comuns a uma classe. Quando isso ocorre temos uma enumeração com paralelismo de similaridade. Hipoteticamente pode-se supor uma enumeração caótica, aquela em que os elementos são totalmente disjuntos.

Enumeração ordenada: é aquela em que a disposição dos elementos na seqüência admite algum tipo de ordem.

Enumeração na enumeração: há casos em que um ou mais elementos da enumeração são enumeração.

Enumeração classificada: ocorre quando os termos da enumeração são classes de uma taxonomia. Diferencia-se da enumeração com paralelismo pois, no paralelismo, não existe a obrigatoriedade de atender às regras que definem uma taxonomia, como conter todos os elementos do universo considerado e não haver interseção de domínios.

Retomada

Retomada é a segunda introdução de um elemento sintático, como ocorre no exemplo: 'Os motivos são A, B e C. A porque ..., B porque ... e C devido à ...'. A retomada se dá por motivos diversos como:

Para desenvolver o tema sem o uso de parênteses, o que prejudicaria a comunicabilidade.

Para rememorar um termo cuja determinação ficou em suspenso após uma digressão. Exemplo: 'A Retórica que por longos séculos foi objeto de exegese, de adaptações às necessidades de época, de deturpações, esta Retórica agora ...'.

Para enfatizar uma determinação. Exemplo: 'Só um progresso importa, o progresso justo'.

O anacoluto citado pela Retórica clássica é uma forma de retomada com fim enfático. Exemplo: 'A juventude de hoje. O que dizer dela?'

Superposição sintática

Ocorre quando um termo sintático desempenha função dupla no período. Exemplo: No meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho. (Carlos Drummond de Andrade). O termo 'tinha uma pedra' serve a dois adjuntos.

Redobro sintático

Ocorre quando o terceiro termo sintático tem com o segundo a mesma relação que o segundo tem com o primeiro. Exemplo: João que amava Maria, que amava Raimundo, que amava ... Carlos Drummond de Andrade.

Atribuição reflexiva

Ocorre quando se faz uma atribuição de qualidade sobre a própria qualidade. Exemplo: É um tédio que é até do tédio. (Fernando Pessoa).

Gradação de determinantes

É a seqüência de atribuições a um determinado, a seguinte, num grau superior ao anterior se ascendente e o contrário de descendente. Exemplo: 'É pouco, é mais que pouco, é muito pouco, pouquíssimo.'

Paralelismo de contraste ou antítese

É a referência num mesmo discurso a objetos que mantêm uma relação de contrariedade. Um objeto referido é o oposto do outro como bom e mau, belo e feio, moral e imoral, etc. Exemplos: 'Dizer mais com menos', 'A quem ama, o feio, bonito lhe parece'.

Paralelismo de similaridade

É a sucessão de partes do discurso que tem entre si uma relação de similaridade de conteúdo. Para caracterizar o paralelismo, basta apenas a citação dos contrários em partes contíguas do discurso. Neste sentido, podem ser chamados de paralelismo a equivalência de definição e o sofisma da contrariedade camuflada. A primeira é paralelismo de similaridade e a segunda de contraste.

A definição de paralelismo, aqui, é aberta, por isso nem tudo que chamamos de paralelismo tem proveito retórico. O proveito costuma aparecer quando existe uma relação adicional entre os opostos ou similares que compõem o paralelismo. Alguns exemplos de relação adicional:

Os opostos são a realidade e a aparência, o prometido e o acontecido, o que é e o que deveria ser, o esperado e o acontecido, o utópico e o pragmático, etc.

Como a definição de paralelismo é aberta, também não se considera em que condição os opostos são inseridos no discurso. Pode haver afirmação de ambos, afirmação de um ou de outro, negação de ambos ou outras possibilidades de onde também resultará também efeito retórico.

Parêntese

Sintaticamente, o parêntese consiste na intercalação de um trecho de discurso entre duas partes do mesmo período ou mesma oração. A parte que sucede o parêntese é a continuação da parte que o antecede.

Parêntese num nível superior ao sintático é a intercalação de um trecho de discurso entre duas partes de um segundo discurso cujo núcleo temático é diferente. Assim como no parêntese sintático a parte do segundo discurso que sucede o parêntese é a continuação da parte que o antecede.

O parêntese é uma digressão, um desvio do núcleo temático e prejudica o processamento do discurso, pois suspende uma construção para retomá-la mais adiante, obrigando assim o receptor a uma retenção provisória de termos sintáticos órfãos.

É possível o parêntese dentro do parêntese.

O parêntese pode ser usado como recurso de concisão. Uma informação é dada logo após a citação do que lhe seja correlato, evitando assim a retomada desse correlato mais tarde para introduzir a informação. Como exemplo, o enunciado parentético: 'Aristóteles, um dos maiores filósofos gregos, escreveu 'Arte Retórica". Para substituí-lo por uma construção sem parênteses será necessário o uso de uma retomada. 'Aristóteles escreveu 'Arte Retórica'. Ele foi um dos maiores filósofos gregos'.

Comparação

É formada por três elementos, todos explícitos: o comparado, o comparante e o atributo.

Como exemplo, algumas frases que contêm a mesma comparação:

Maria é bela como uma flor.

Maria tem a beleza da flor.

Maria e a flor, belas uma e outra.

Maria com a beleza da flor.

No exemplo dado, Maria é o comparado, a beleza é o atributo e flor o comparante.

A comparação dá expressividade à atribuição. Se dissesse Maria é bela as características da beleza não estariam delineadas. O comparante atua como determinante do atributo.

As funções e a excelência da comparação são próximas às da metáfora. O objetivo de uma comparação é criar uma atribuição expressiva. Isso se obtém quando: o atributo é muito pertinente ao comparado ou quando é muito característico do comparante.

A comparação torna palpável a relação entre o comparado e o atributo nos aspectos de qualidade e quantidade.

A comparação atenua ou agrava, conforme o caso.

Paráfrase

É o discurso semelhante a outro preexistente. A paráfrase é praticada com várias intenções:

Adaptar uma mensagem a outro contexto visando atualizar ou adequar ao contexto novo, etc.

Criticar o discurso preexistente ao criar uma versão que enfatiza, hipetrofia, atrofia, atenua, agrava, extrapola, minimiza, maximiza ou outra dualidade que altere a valoração que se supõe haver em torno do pré-existente.

Fazer caricatura. Neste caso o recurso principal usado é a hipérbole.

A paráfrase pode-se dar em diversos níveis do discurso: gráfico, fonológico, gramatical, semântico, mimético e havendo semelhança de estilo, no estilístico.

Quando a paráfrase visa produzir humor, chama-se paródia.

O resumo é uma paráfrase de conteúdo, com alteração do grau de síntese.

Uma paráfrase mimética é a dos discursos que veiculam a mesma fábula.

Plurissignificação

É a admissibilidade de mais de um significado válido para o mesmo enunciado. Um exemplo: Hamlet ao responder sobre o que lia: 'Palavras, palavras, palavras'.

Formalmente a plurissignificação é semelhante à ambigüidade. Na ambigüidade a duplicidade de significado tem efeito negativo. Não se consegue discernir qual das duas possibilidades é a válida. Já na plurissignificação, ambos os sentidos são válidos.

Paradoxo

É um enunciado indecidível quanto à sua veracidade ou falsidade, o que ocorre em função da forma e independente de verificação externa ao discurso.

Paradoxos de Russel: Chamados por Bertrand Russel de paradoxos das classes, são proposições sobre proposições que resultam falsas quando aplicadas a si mesmas. O exemplo de Russel foi o seguinte: 'Numa folha de papel está escrito: o que se diz no verso desta folha é falso. Ao virar a folha, no verso deparamos com a afirmação: o que se diz no verso desta folha é falso.'

Um exemplo vindo da Antigüidade: 'Epimênides diz que todos os atenienses são mentirosos. Epimênides é ateniense, logo, o que ele diz é uma mentira e os atenienses não são mentirosos, logo ...'

Os paradoxos de Russel são muito usados, em especial no discurso filosófico, o que traz problemas filosóficos mal vislumbrados, além de efeito retórico que é o nosso interesse. Alguns exemplos:

Só sei que nada sei.

Não existe filosofia perene.

Palavras são palavras, apenas palavras.

Tautologia

É o enunciado que resulta sempre verdadeiro, não importa a veracidade de suas variáveis. Exemplos:

Cada um é o que é.

O que está feito está feito.

Ou é ou não é.

Interjeição

Interjeições são ocorrências típicas do uso expressivo da linguagem.

As características principais do uso expressivo são:

  • Externa estados de ânimo.

  • Emprego de signos próprios, geralmente originados a partir de ocorrências do uso comunicativo. Ocasionalmente pode lançar mão de signos não expressivos.

  • Não se volta para um receptor.

  • Não é comunicação, propriamente. A interjeição não veicula uma mensagem, ela indica um estado de ânimo.

Há ocorrências de discurso totalmente expressivas e outras totalmente comunicativas. Mas também há ocorrências em que os usos se interceptam. Por exemplo:

Quando alguém dá uma topada numa pedra e solta um palavrão, temos um uso todo expressivo, pois, o palavrão não se dirige a ninguém, apenas externa um estado emocional.

Uma característica relevante da interjeição é a brevidade.

Tipos de interjeição: Há ocorrências que só aparecem no discurso como interjeições. Por exemplo: 'uau', 'ai', 'ui', 'Caramba'.

Há ocorrências que ora se dão como interjeição, ora como signos do uso comunicativo. Por exemplo: 'Puxa', 'Droga', ' Diabos'. Neste caso há uma polissemia, em que uma das possibilidades de uso do termo é expressiva e outra comunicativa.

A origem das interjeições: as interjeições são signos e formam-se por mecanismos diversos como:

icônico. Imitam sons não fonológicos associados aos estados emocionais que externam. Por exemplo: 'ai', 'ui'.

Uso de palavras tabu. As interjeições que usam palavras tabu, como os palavrões, têm a característica adicional de serem uma ruptura da sociabilidade.

As interjeições originam-se também a partir de enunciados comunicativos correlatos com o estado de ânimo em questão. Exemplo: 'Por Deus', 'Nossa', 'Pelas barbas do profeta'. Nesses exemplos há uma mensagem presente na leitura imediata, mas veicular esta mensagem não é o objetivo da interjeição.

Ocorrências não morfológicas

São os meios que se lança mão para reproduzir classes de sons não morfológicos. Exemplos típicos são vistos nos quadrinhos: 'Bum', 'plaft', 'splash', 'crac'. Há ocorrências não morfológicas nos discursos escrito e oral.

É comum essas ocorrências serem símbolos. Nos quadrinhos, 'Bang' representa o som típico do disparo de uma arma de fogo. É símbolo mas não é signo, pois não é usado para citar o disparo mas para substituir o disparo na sua ocorrência.

As ocorrências não morfológicas, assim como os fonemas, não representam sons, mas classes de sons. Costumam ser em parte icônicas e em parte, arbitrárias. A representação perfeita geralmente não é possível, pois, os sons da fala raramente imitam com perfeição sons não fonológicos. Daí, geralmente as ocorrências não morfológicas serem símbolos verbais fonológicos não muito fiéis à classe de sons que procuram imitar. Depois que uma ocorrência não morfológica se converte em símbolo, esta imitação imperfeita que ela realiza deixa de ser relevante, pois, a relação deixa de ser icônica para se tornar convencional.

Regras de supressão

A Retórica não se funda só no que se diz, mas também no que não se diz. Existem inúmeras regras de supressão para o discurso. Algumas notáveis:

  • Da indução fonológica: é típica da prosa quando esta evita rimas, repetições, ecos, aliterações, trocadilhos, ritmos, métricas, iconias fonológicas, ou seja, elimina-se do discurso tudo que leva à indução de semelhanças ou repetições no nível fonológico do discurso. Essa é uma regra do discurso elaborado. No discurso espontâneo, as induções ocorrem de forma assistemática.

  • Do clichê: É típica do discurso de pretensão bem-comportada, sisudo. O difícil é chegar a um acordo sobre a que se aplica o conceito do clichê. O jornalismo sempre se propõe esta regra e sempre a descumpre.

  • Do calão, da gíria, do regionalismo, do jargão. É uma regra típica dos discursos que pretendem servir a um espectro largo de receptores.

  • Das anomalias.

  • Das ocorrências fáticas e metalingüísticas. É típica do discurso elaborado sem retorno.

  • Das referências de contexto circundante. Típica do discurso público.

  • Da contradição e outras transgressões à lógica formal quando essas transgressões não podem ser interpretadas como recursos semânticos de Retórica.

  • Do que prejudica a comunicabilidade.

  • Do raro.

  • Do anacoluto, da reticência. Típica das ocasiões em que se deseja passar impressão de segurança.

  • Dos desvios do idioma-padrão.

  • Da redundância.

Todas as regras de supressão relacionadas acima são típicas de algum tipo de discurso com pretensões específicas, não podendo ser encaradas como válidas em geral.

Ocorrências metalingüísticas

Ocorrências metalingüísticas são trechos do discurso que tratam do código que está em uso. Nestes casos é comum uma palavra ser tomada não como instrumento do código, mas como objeto, seja enquanto signo, enquanto significante ou enquanto significado. Exemplos: O que quer dizer tal palavra? Tal palavra é muito sonora.

Nas ocorrências metalingüísticas é comum ser necessária a distinção entre uso e menção. Por isso cria-se mecanismos para distinguir quando um fragmento de discurso está sendo usado ou mencionado.

No discurso escrito, os mecanismos costumam ser convenções editoriais. Por exemplo: o uso de parênteses, apóstrofos, colchetes, barras, que convencionalmente, caracterizam a condição de uso ou menção do fragmento por eles delimitado.

Tanto no discurso oral como no escrito podem ser usadas balizas metalingüísticas. Por exemplo: 'aqui se fala da palavra 'tal' e não do que ela se refere'.

Ocorrências fáticas

Uma ocorrência fática é um trecho do discurso que trata do andamento do ato comunicativo tal como:

Verificação de contato e sintonia. Exemplos: 'Alô', 'Escute bem.'

Retificações. Exemplos: 'Quer dizer...', 'Não usei a palavra certa ...'

Verificação de transmissão. 'Entendeu?', 'Ficou claro?'

As ocorrências fáticas são típicas do discurso espontâneo com retorno. No discurso elaborado sem retorno, as ocorrências fáticas costumam ser suprimidas.

Retificação

É toda ocorrência que apaga uma ocorrência anterior.

Exemplo: 'Você multiplica por dois, quer dizer, ou melhor, multiplique por três'.

Quando ocorre sem intenção resulta de idas e vindas do entendimento. A retificação é típica do discurso espontâneo distenso, mas há certos casos em que é praticada intencionalmente no discurso elaborado. Nessas ocorrências de retificação intencional, costuma haver alguma relação entre o que se apaga e o que lhe substitui. A relação pode ser, por exemplo, a aparência e a realidade, o verdadeiro e o falso, o pretendido e o alcançado, etc. Nesta situação a retificação ganha função crítica.

Um caso particular de retificação é a retificação gradativa, na qual o substituto é semelhante em natureza ao apagado, mas diferente em grau.

Vocativo

Vocativo é toda invocação do receptor. Exemplos: 'Você, pare'. ' Meu caro, vê se me entende'. ' João, é de você que estamos precisando'.

O vocativo é praticado com função fática ou apelativa. Na função fática visa confirmar a transmissão. Na função apelativa, busca-se um ganho de intimidade pela reiteração da exclusividade do discurso, como se o receptor dissesse: é para você que estou falando.

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Trocadilho

O

trocadilho resulta de uma semelhança formal entre dois enunciados, por vezes, um deles elíptico, semelhança que pode chegar à identidade. Alguns trocadilhos relacionam uma paráfrase com seu parafraseado. Os trocadilhos elípticos não deixam de ser um tipo de ambigüidade intencional. O trocadilho pode ser intencional ou acidental, como ocorre na cacofonia.

Tipos de trocadilho

Fonológicos

  • Alterações nas pausas. Resultam da alteração na colocação das pausas. Exemplos: Dever de ver, Lavrador lavra dor,. Por cada versus porcada.

  • Entre homófonos.Exemplo: Sem conserto do piano não há concerto.

  • Entre parônimos. Exemplo: Os integralistas diziam: Deus, Pátria e Família e o Barão de Itararé contra-atacava com o slogan: Adeus, Pátria e Família.

  • Entre polissemias. Exemplo: O que você faz aqui? Nada. Slogan de uma escola de natação.

Um trocadilho fonológico pode ser visto como rima.

Sintáticos

  • Permuta de posições. Exemplo: Homem grande versus grande homem.

  • Permuta de funções sintáticas. É a antimetábole. Exemplos: Come para viver ou vive para comer?. Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil.

Semânticos

  • O sentido imediato pelo sentido largo. Inclui o caso da locução pela frase não entendida como locução.

  • O signo pelo significado. Exemplo: Qual o nome do produto? É Sem Nome.

  • Usar o mesmo termo duas ou mais vezes num enunciado, e em cada uso com sentido diferente. É a antanáclase. Ex.: Em vão os sonhos se vão.

  • Contextuais. São os qüiproquós.

  • O termo elíptico por outro. Exemplo: Mineira gostosa. Slogan de um restaurante de comida mineira.

  • Atribuir o mesmo determinado da atribuição anterior para a próxima atribuição. Exemplo: Dizer mais com menos. Neste trocadilho mais se refere à mensagem e menos ao discurso. O trocadilho resulta de se atribuir menos à mensagem.

Cacofonia

É o trocadilho fonológico acidental e cômico em que o enunciado elíptico implícito, inesperado pelo emissor resulta no chulo, obsceno, no grotesco, etc.

Funções do trocadilho

O efeito do trocadilho resulta da observação de duas formas semelhantes com sentidos relacionados de alguma forma. Há trocadilhos com intenção crítica, na qual se deseja transferir para um enunciado o suscitado pelo outro, geralmente da paráfrase para o parafraseado. Há ainda o caso do trocadilho em que o efeito resulta da relação que media os dois enunciados. No exemplo do trocadilho do Barão de Itararé: 'Adeus, Pátria e Família' o cômico resulta da relação de oposição extrema entre a paráfrase e o parafraseado.

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Título

Um título é um segmento isolado do discurso que cumpre uma ou mais destas funções:

  • É um nome para o discurso.

  • É um recurso de atratividade que funciona como ponto de entrada no discurso, a parte do discurso que se lê primeiramente.

  • É um recurso de acessibilidade que presta um esclarecimento temático sobre a natureza do discurso que nomeia.

  • É uma parte ativa do discurso e ocorre algumas vezes em discursos cujo título não pode ser excluído sob pena de alterar ou impedir a inteligibilidade do discurso como um todo.

Título como recurso de atratividade

Nos discursos em que o contato e a sintonia do receptor precisam ser conquistados, o título tem um papel de destaque, pois é a primeira parte do discurso que o leitor busca. Neste papel de ponto de entrada para o texto, o título tem a responsabilidade de fixar a atenção do receptor. No discurso escrito, diversos recursos de edição são criados para facilitar o acesso do receptor ao título. O título, via de regra, está na primeira página de um livro, no cabeçalho da página, no cabeçalho do texto, sempre com corpo tipográfico maior ou outro recurso de destaque como negrito, itálico, sublinhado, linhas em branco antes e depois, etc.

Ser curto. Esta é uma exigência moderna para títulos que tem a ver com a atratividade. De preferência, curto o suficiente para ser lido numa só acomodação visual da retina. Isto melhora a atratividade porque possibilita uma leitura automática, independente de decisão consciente e atenção concentrada. O título curto é melhor para memorizar.

Título como recurso de acessibilidade

Para um discurso ser o mais acessível possível, deve ser segmentado ao máximo e cada segmento facilmente identificado quanto à sua natureza. O título pode esclarecer a natureza do discurso que nomeia.

Há várias formas de esclarecimento temático:

Genérico: típica do ensaio. Por exemplo: Arte Poética e Arte Retórica.

Metonímico: se refere a algo contíguo ao tema. Exemplos: livro cujo título é o nome do protagonista.

Alegóricos: O título é uma alegoria ao tema. Exemplo: A Metamorfose ou O Processo.

Títulos de notícias são um caso especial de títulos temáticos. Podem ser considerados metonímicos, pois são a revelação do foco da notícia. O título noticioso é o núcleo da notícia, sua parte de maior importância, impacto, atratividade.

Olho

Olho é um segmento relativamente bem menor que o segmento principal e se refere a este esclarecendo a natureza do referente. No jornalismo, o olho tem a função de esclarecer o tema do texto. O título atrai e o olho esclarece. Olho é um texto um pouco mais longo que o título e é informativo e objetivo.

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Segmentação

Odiscurso é segmentado em unidades discretas em todos os níveis lingüísticos: fonológico, gráfico, morfológico, sintático e semântico. Além da segmentação com funções lingüísticas, há segmentações retóricas e segmentações estilísticas. Uma diferença relevante entre segmentação lingüística e retórica é o fato de a retórica ocorrer também num nível superior ao gramatical. A segmentação do discurso pode se dar na área do significante ou do significado.

Segmentação pelo significante

No discurso oral, a segmentação está presente na(s):

  • pausas

  • pontuação

  • balizas. Exemplo: Vamos à outra parte ..., Mudando de assunto ...

  • interpolação de títulos

No discurso escrito, a segmentação se dá por:

  • Espaços em branco

  • Parágrafo

  • Mudança de linha

  • Mudança de página

  • Diferenciação editorial

  • Caixas

  • Interpolação de títulos

O discurso é segmentado no nível do significante geralmente para acompanhar uma segmentação no nível do significado. Há casos em que isso não ocorre. Por exemplo: o verso e a estrofe são recursos de segmentação pelo significante que podem corresponder ou não a segmentações pelo significado. Um verso ou uma estrofe com encadeamento não correspondem a um segmento temático.

Parágrafo

O parágrafo é um recurso de edição e consiste em segmentar o discurso após a conclusão de um período sintático, o novo segmento deve ser alinhado na margem esquerda, com ou sem recuo para a direita. As funções do parágrafo podem ser de atratividade. O parágrafo funciona como ponto de entrada para o texto. Pode ser também de acessibilidade. Nesse caso, a função só se cumpre se o parágrafo for uma unidade temática, ou seja, se a sua segmentação tiver por correspondência uma segmentação temática. Há quem defina o parágrafo como a unidade temática mínima, mas isso só é válido para uma parcela dos parágrafos observados.

Segmentação e comunicabilidade

A segmentação pode aumentar ou restringir a comunicabilidade, dependendo do modo como é praticada. Por exemplo: ao praticarmos uma segmentação temática beneficiamos a acessibilidade. Se dividirmos uma palavra em dois segmentos de linha na hora da edição, prejudicamos a pronunciabilidade.

Outros exemplos: no discurso escrito, se segmentarmos a palavra, o termo sintático, a locução, a oração, perde-se em comunicabilidade. Por isso, no jornalismo evita-se dividir palavras, nomes, locuções e termos sintáticos em dois segmentos de linha. Como regra geral, pode-se afirmar que a segmentação prejudica a comunicabilidade toda vez que rompe uma unidade, seja ela uma palavra, um termo sintático, uma locução, uma oração ou um conceito.

Pontuação

A pontuação é um tipo de segmentação. Há uma pontuação lingüística, outra retórica e uma terceira que é estilística. No discurso oral, a pontuação se caracteriza pelo uso da pausa. No discurso escrito, há vários grafemas que caracterizam pontuação: vírgula, ponto-e-vírgula, ponto. Além destes, há outros que apresentam outras funções acumuladas com a de pontuar: ponto de interrogação, exclamação, dois pontos, travessão, etc.

Pontuação lingüística no português:

Nas enumerações: 'João, Pedro, Paulo e José se apresentem'.

Nos apostos: 'Aristóteles, o grande filósofo grego, é autor dos Tópicos'.

Pontuação estilística no português:

Colocar entre vírgulas conjunções adversativas: 'Fez, porém, malfeito'. Como as conjunções por natureza delimitar orações, as vírgulas são redundantes. Contudo, a regra consta nos manuais de gramática normativa.

Separar provérbios em hemistíquios: 'Quem usa a cabeça, não usa os pés'. A segmentação é usada meramente por respeito a uma tradição.

As funções retóricas da pontuação podem ser a de determinar a entoação, enfatizar o que se coloca entre pausas ou contestar a estilística quando se rompe com uma norma de estilo.

O desrespeito às regras de pontuação lingüística pode trazer danos à comunicabilidade na medida em que cria obstáculos, às vezes intransponíveis, à decifração. Isto tem sido usado em literatura deliberadamente. Certos autores eliminam pontuação com objetivo de reduzir a comunicabilidade do discurso.

Estruturação em níveis

Tanto na segmentação pelo significante como na pelo significado pode haver estruturação em níveis.

Na estruturação em níveis pratica-se a segmentação na segmentação, ou seja, segmentam-se os segmentos.

Numa estruturação em níveis identificamos três tipos de segmentos:

  • Segmentos de ponta: não são formados por segmentos menores, só por texto.

  • Segmentos de topo: não estão contidos num segmento maior.

  • Segmentos intermediários: estão contidos num segmento superior e contêm segmentos inferiores.

Podemos atribuir para cada segmento um número ordinário de nível. Os segmentos de topo são de nível 1. Os segmentos de nível 2 são os que só são contidos por segmentos de nível l e os segmentos de nível três só são contidos em segmentos de nível 2 e l e assim sucessivamente.

No discurso escrito o nível do segmento na estruturação pode ser caracterizado por:

  • Tipografia específica para o título.

  • Tipografia específica para o texto.

  • Marcadores específicos para status.

Geralmente a estruturação em níveis se corresponde com uma hierarquia temática. Neste caso os segmentos de nível 1 tratam do tema genérico do discurso. Os segmentos de nível 2 tratam todos do tema relacionado ao segmento de nível 1 que os contém. Os segmentos de nível 3 tratam todos do tema relacionado ao segmento de nível 2 que os contém e assim por diante.

Também há estruturações em nível que refletem uma taxonomia. A cada segmento de uma estruturação em níveis é possível atribuir um status que pode ser correspondido a um número ordinal de status, ou a um nome.

Status de um segmento é um valor a ele atribuído relativamente aos demais. Exemplo típico de atribuição de status é a seqüência tomo, capítulo, artigo, parágrafo, alínea.

Um segmento numa estruturação por nível tem um número ordinal de nível e outro de status, que não precisam ser iguais, embora o de status não possa ser maior que o de nível.

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Rima

Genericamente, rima é toda semelhança fonológica entre as partes do discurso, é repetição fonológica. Alguns exemplos de rimas entre palavras:

  • Posteriores: rima, lima, prima.

  • Anteriores: copo, cópula, cópia.

  • Difusas: tártaro, extrato, tratado, tântalo.

  • Igualdade de métrica.

  • Igualdade quanto à colocação de acentos de intensidade.

Rima clássica é aquela que se verifica na parte posterior da palavra, quando temos a mesma seqüência de fonemas a partir da vogal mais intensa.

Aliteração é a repetição difusa de fonemas e também pode ser considerada rima.

Sendo repetição, para surtir efeito a rima tem de ser percebida. Isso depende de fatores como atratividade dos termos rimados, distanciamento entre os termos rimados, freqüência das rimas e a ênfase dada a elas.

Talvez nenhum recurso de Retórica esteja tão associado ao discurso de intenção poética quanto a rima clássica, de tal modo que é quase inevitável rotular o discurso rimado como discurso de intenção poética. Aristóteles já dizia que não é assim. Pode-se fazer rima em qualquer modalidade de discurso e que não é a presença da rima que converte o discurso em poesia. Mas a associação existe, reforçada por uma longa tradição de poesia rimada e também pela estranha regra estilística da indiferenciação fonológica na prosa. Praticamente não há manual de estilística que não prescreva o expurgo da rima na prosa.

A rima tem por característica chamar atenção sobre o significante. Praticada sistematicamente, dá ao discurso uma impressão de ordem, de unidade. Praticada de forma periódica, cria expectativa no receptor, que passa a esperá-la em posições fixas do discurso.

No discurso espontâneo, a rima só ocorre esporádica e acidentalmente. Para que ocorra sistematicamente e em posições fixas, como na poesia clássica, é preciso intenção e em certos casos até virtuosismo para transparecer naturalidade.

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Repetição

Arepetição como recurso de Retórica é praticada em diversos níveis: fonológico, gramatical, gráfico, etc. Há três casos de repetição:

  • Repetição de formas de mesma função, ocorrências redundantes.

  • Repetição de funções sob diferentes formas, igualmente redundantes.

  • Repetição de formas com diferentes funções. Não há redundância. Um exemplo: 'Come para viver ou vive para comer?'

A repetição é praticada por razões diversas, às vezes sobrepostas, tais como:

  • Icônica. Neste caso pratica-se para sugerir obsessividade, tipicidade, monotonia, etc.

  • Para fazer trocadilho.

  • Para criar rima, ritmo.

  • Para retomar um conceito provisoriamente inconcluso ou não desenvolvido por razões didáticas. Exemplo: Há três razões: A, B e C. A porque ..., B porque ..., C porque ...

  • Porque o conceito surge repetidas vezes ao longo do discurso. Por exemplo: em uma biografia de Shakespeare não se conseguirá evitar contínuas repetições da palavra Shakespeare.

  • Por não se usar o zeugma.

  • Para criar redundância.

  • Por ser uma repetição estrutural da língua. Por exemplo: no português o dígrafo ss.

  • Para enfatizar. Um exemplo: Hamlet perguntado sobre o que lia, diz: Palavras, palavras, palavras.

Percepção da repetição

Para surtir efeito, bom ou mau, a repetição tem de ser percebida e isso depende de vários fatores. Entre eles estão os ligados à qualificação do receptor, sua atenção, sua concentração, suas qualidades de observador. Outros fatores dizem respeito à codificação. Para estes podemos dizer que a percepção da repetição melhora por causa da atratividade, raridade, proximidade, ênfase e freqüência.

A percepção da repetição melhora com a atratividade do elemento que se repete. Vários fatores determinam a atratividade, entre eles a raridade. Poucas palavras ocorrem muito e muitas palavras ocorrem pouco. Esta é a regra geral do léxico. Repetição de palavras de largo uso como a das classes gramaticais fechadas (artigos, preposições, pronomes) só é percebida se houver outro fator favorável como proximidade ou freqüência alta. Ex.: Banco do Desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul. Já a repetição de palavras raras é percebida mesmo sem proximidade ou freqüência.

A percepção da repetição melhora com a proximidade dos elementos repetidos. A rima literária, por exemplo, nos casos de maior afastamento usava o esquema ABBA, ou seja não se faz rima literária separada por mais de dois versos, pois o efeito não seria percebido.

A freqüência das repetições melhora a percepção do efeito. Quanto maior o número de repetições, maior a possibilidade de percepção do efeito. Se a repetição é periódica, ou seja, se é um ritmo, ela cria a expectativa da próxima repetição, o que estimula a percepção.

A percepção da repetição melhora com a ênfase sobre a repetição. A rima literária, por exemplo, é feita no final do verso, que é uma posição enfática. Consegue-se ênfase de vários modos: pela posição, entoação, tipografia, etc.

Repetição: qualidade ou defeito?

A repetição pode surtir efeitos positivos ou negativos, conforme a impressão que suscita.

O efeito é negativo quando o que se suscita é impressão de excesso, de descuido na elaboração, de limitação da qualificação do codificador, de prolixidade.

O efeito é positivo se produzir iconia, criar regularidade, ritmo, atmosfera, ênfase.

Repetir ou usar sinônimos? Nos discursos em que um conceito é citado diversas vezes, o emissor tem de escolher entre repetir sempre o mesmo signo para designá-lo ou usar sinônimos. No caso de repetir, corre o risco de cair no excesso. A solução oposta, por vezes, leva ao pedantismo, à estranheza, à inadequação contextual. A decisão é estética.

Não há regras infalíveis para detectar quando a repetição deixa de ser qualidade para ser um vício. A avaliação é subjetiva.

Pleonasmo

Quando o efeito da repetição extrapola certo limite subjetivo e a repetição é considerada uma trivialidade, um supérfluo, um excesso com efeito cômico, temos o pleonasmo. Há dois tipos de pleonasmo:

Pleonasmo de repetição. Exemplo: 'Subir para cima' que equivale a 'subir e ir para cima', 'Pleonasmo de repetição é redundante e repetitivo'.

Pleonasmo de trivialidade. Exemplo: 'Chove chuva', 'frígida neve', 'cadáver mudo'. Neste caso, uma parte do enunciado é implicação óbvia da outra. 'Faça o bem, não faça o mal'. Um enunciado é a negação do contrário do outro.

A caracterização do pleonasmo é contextual e subjetiva. O enunciado 'Comer comida' não pode ser rotulado como pleonasmo fora de um contexto. Pode-se comer outras coisas além de comida.

Quiasmo

Quiasmo é a repetição simétrica. Exemplo:

Cheguei. Chegaste

Tu vinhas fatigada e triste

e triste e fatigado eu vinha.

Olavo Bilac

Na língua, que é linear, a repetição simétrica tem a forma geral ...C, B, A, A, B, C,... Em linguagens não-lineares há outras possibilidades de simetria.

Um caso especial de repetição simétrica é a antimetábole, que classificamos como trocadilho. A antimetábole é ao mesmo tempo repetição simétrica e trocadilho.

Ritmo

Ritmo é a repetição periódica de uma seqüência chamada compasso. Em literatura, o ritmo mais comentado é o da intensidade das sílabas do discurso, mas pode-se falar num ritmo das rimas se o poema tiver rimas em posições fixas, ou num ritmo da métrica, etc.

A poesia anterior ao modernismo valorizava o ritmo das sílabas intensas, provavelmente movida pelo mesmo princípio de ordem e unidade que norteava o uso da rima, do metro, da estrofe e pela origem musical da poesia.

Há autores que apontam iconias relativas aos ritmos das sílabas intensas. Assim:

  • O ritmo binário: intensa, fraca, intensa,... é mais adequado para significados relativos a equilíbrio, segurança, persistência, calma, vagar.

  • O ritmo ternário: intensa, fraca, fraca... é mais adequado a significados relativos a desequilíbrio, impacto, violência, insegurança, pressa.

  • O ritmo quaternário: intensa, fraca, fraca, fraca... é próprio para textos que sugerem velocidade, leveza, distanciamento, suavidade.

O ritmo nos discursos espontâneos é esporádico e acidental. Para que ocorra sistematicamente é preciso intenção e elaboração.

Métrica

Métrica é uma regularidade quanto ao número de sílabas de cada segmento de discurso compreendido entre duas pausas nítidas de entoação. É repetição periódica do número de sílabas.

Redundância

É a repetição de funções com ou sem repetição de formas e pode se dar em diversos níveis: fonológico, sintático, semântico.

A redundância de discurso pode ocorrer espontânea ou intencionalmente. Em certos casos é considerada defeito, noutros, qualidade. Intencionalmente, ela é praticada como uma precaução contra danos à transmissão causados por ruídos, desatenção, incompreensão, anomalias, etc. Em outros casos, sua função é dar ênfase a uma mensagem.

Existe uma redundância de código que é inerente à estrutura da língua. Cada idioma tem suas redundâncias estruturais. Exemplo: 'Eu faço'. Esta frase no português tem uma redundância estrutural que é a determinação do sujeito da oração tanto no pronome como na flexão do verbo. Para eliminá-la poderia ser usada a forma: 'Faço'. Muitas das redundâncias de língua não apresentam alternativa concisa.

Redundância de discurso é aquela que resulta da liberdade do emissor para escolher entre as várias possibilidades gramaticais válidas na língua. Exemplo: 'Muito bem, excelente, ótimo'. A redundância aqui é semântica, o mesmo significado é veiculado três vezes. Para este enunciado existe alternativa não redundante e não se fere a estrutura da língua com este ganho de concisão.

Abundância

É a característica da forma que apresenta mais elementos que os hipoteticamente suficientes para o cumprimento de sua função. São elementos que juntos, e só quando juntos, desempenham uma função. Um exemplo no nível fonológico: as variantes prosódicas 'fomo', 'viajamo' e 'voltamo' dos verbos 'ir', 'viajar' e 'voltar' ilustram uma abundância fonológica estrutural da língua. As variantes existem em função da inércia que faz o idioma se transformar no sentido da economia. Os fonemas 's' finais são abundantes na caracterização da primeira pessoa do plural do verbo, tanto que podem ser eliminados sem que se perca a sua função. Neste caso, o idioma utiliza mais fonemas que o necessário para o cumprimento da sua função.

Outro exemplo no nível ortográfico: 'ss' no português é um dígrafo que representa o fonema sibilante 's' em algumas palavras. Temos uma repetição de grafemas, mas não uma redundância de grafemas, pois, é a junção dos dois e só dos dois que cumpre a função. Temos abundância porque são necessários dois elementos para uma só função, neste caso dois elementos iguais. A abundância também no código e no discurso.

O elemento abundante pode hipoteticamente ser eliminado sem inviabilizar a sua função. Os elementos que permanecem têm a propriedade de se distinguir de outros elementos de mesma classe, quer dizer, um dos quesitos para a suficiência é o da distinção. No exemplo das variantes dos verbos do português fica claro que o 's' não é necessário no papel de distinguir aquela forma de outras flexões do verbo.

Uma linguagem artificial otimizada para a economia seria livre de redundâncias e abundâncias. Nela, nenhum elemento do discurso poderia ser suprimido sem prejuízo para a mensagem. Todos os elementos teriam função distintiva.

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Oxímoro

Oxímoro é o enunciado contraditório à primeira vista, ou seja, faz-se a conjunção de duas proposições das quais uma é a negação ou implica na negação da outra.

O que diferencia o oxímoro da contradição propriamente dita é a intencionalidade do oxímoro, a proximidade dos termos contraditórios, a visibilidade flagrante e a admissibilidade de uma decifração.

Na contradição propriamente dita há o lapso ou a intenção de escamoteamento, no oxímoro a idéia é deixá-lo bem visível, obrigando quem quer assimilá-lo a refletir sobre o porquê de sua presença.

O oxímoro é uma contradição em leitura imediata. É lançado para que se decifre e decifrá-lo envolve dissolver a contradição. Para dissipar a contradição, o receptor é levado a fazer suposições como:

  • A natureza do referente tratado no oxímoro é diferente daquela que se supõe em leitura imediata. Em Claro Enigma, de Drummond, é plausível supor que aquilo que se julga um enigma na verdade não é ou que o próprio conceito de enigma é um embuste.

  • O que se diz verdadeiro sob um aspecto, um ponto de vista, não o é sob outro. Quando se diz: 'tudo certo como dois e dois são cinco' é aceitável supor que sob certo prisma as coisas estão certas porque parecem certas, porque se finge que estão certas, mas sob outra visão tudo está errado.

  • Deve-se tomar o enunciado em duas acepções: uma afirmativa, outra negativa.

  • Evidenciar a contraditoriedade. Quando se diz: 'reparar o irreparável ultraje', destaca-se a impossibilidade do ultraje ser reparado.

Ao se dizer 'conseguiu o impossível', evidencia-se que aquilo que se julgava impossível apenas parecia impossível.

O oxímoro é um recurso de semântica aberta. Quem o utiliza abre possibilidades de decifração. Cabe a quem o assimila fechar as lacunas.

 
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